Abandonado e mal cuidado, Centro Histórico da capital padece

Embora tenha sido contemplada com recursos do PAC Cidades Históricas, João Pessoa só tem uma, das 11 obras que foram selecionadas, em andamento.

Um cenário que surpreende pela beleza e principalmente pelo abandono. Assim é o Centro Histórico de João Pessoa, que sofre com a degradação causada pelo tempo e pelo descaso do poder público. Embora tenha sido contemplada com recursos do PAC Cidades Históricas, a capital paraibana só tem uma das 11 obras selecionadas e anunciadas em 2013 em andamento. Com exceção da Antiga Casa dos Contos e Residência do Capitão-mor – Centro de Documentação e sede do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) na Paraíba, todas as demais obras estão na fase de contratação ou na elaboração de projeto. Enquanto isso, a história é ameaçada pelo abandono.

Não há previsão de início, muito menos de conclusão em prédios seculares e históricos como, por exemplo, o Conventinho, que hoje serve de abrigo para dependentes químicos que buscam um lugar ‘seguro’ para consumir drogas. Segundo o Iphan, em Brasília, o projeto está em fase de aprovação. A obra está orçada em R$ 3,5 milhões, mas até a presente data, nada foi feito.

Há sete anos, a Prefeitura de João Pessoa (PMJP) havia iniciado a reforma do local, mas as obras não seguiram. Na época, a intenção era que o Conventinho abrigasse a biblioteca pública e a Escola Municipal das Artes (Casa das Artes), onde crianças e adolescentes teriam aulas de teatro, dança, música e artes visuais. Localizado próximo à Igreja de São Frei Pedro Gonçalves e do Hotel Globo, o Conventinho necessita de restauração urgente.

Abandonado e mal cuidado, Centro Histórico da capital padece

Pouco resta do Conventinho que está coberto pela vegetação e cheio de infiltrações. (Foto Francisco Françca)

O prédio foi construído na primeira metade do século XX. Hoje, o pouco que resta, está coberto pela vegetação; as paredes apresentam infiltração. Os portões do Conventinho ficam abertos dia e noite, o que facilita a entrada de dependentes químicos, segundo relatos de comerciantes da área. As janelas e portas do local estão deterioradas pelo tempo. Segundo a Prefeitura de João Pessoa, para início das obras falta apenas a aprovação do Iphan para a assinatura do Termo de Compromisso.

O guia de turismo Rodrigo Ítalo leva visitantes diariamente ao Centro Histórico de João Pessoa. Segundo ele, os turistas ficam impressionados com a situação de abandono encontrada nos prédios históricos da cidade. “Infelizmente a revitalização é uma promessa que não se cumpre. Entra governo, sai governo, e os prédios continuam abandonados. O que temos hoje é um claro retrato do descaso do poder público”, declarou.

A capital paraibana foi contemplada com R$ 50,7 milhões do Governo Federal, através do PAC Cidades Históricas, cujo objetivo é revitalizar e preservar os prédios históricos. Segundo o Iphan, já foram contratados até o momento R$ 27,3 milhões, mais da metade do valor inicial. O Instituto informou que a causa da demora na execução das obras se dá pelo entrave nos projetos, o que impede a liberação dos recursos. De acordo com o Iphan, os recursos são liberados em parcelas, conforme o andamento das obras.

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Porto do Capim, marco do início da colonização de João Pessoa, também está na lista de espera das obras. (Foto: Francisco França)

Também prevista no PAC Cidades Históricas, a revitalização do Porto do Capim é outra obra que não se concretiza em João Pessoa. O projeto está em desenvolvimento, conforme dados oficiais do Iphan, e está orçado em mais de R$ 30 milhões. Foi ali, às margens do Sanhauá, que começou a história da capital paraibana, a terceira mais antiga do País. Apesar da importância histórica, o Porto do Capim e seus prédios seculares são mais um exemplo do abandono.

A antiga alfândega, por exemplo, também contemplada pelo PAC, é mais um prédio esquecido pelo poder público. Atualmente serve de depósito de lixo e é usado como local para consumo de drogas. Segundo comerciantes da área, o prédio também serve como esconderijo para criminosos que realizam assaltos na parte baixa da cidade. Em meio aos demais prédios, a história fica sufocada no abandono. Segundo o Iphan, a obra está em fase de contratação. Ainda no Porto do Capim, a reportagem encontrou outras dezenas de prédios em situação semelhante (nem todos serão contemplados pelo PAC, mas todos contam um pouco da história da cidade).

A revitalização da área divide opiniões. A dona de casa Rosineide Martins disse que não deseja sair da localidade, onde mora há 30 anos. Nada parece incomodá-la: nem as construções desordenadas, nem os mosquitos, nem o forte odor que vem do rio. “Aqui é muito tranquilo. Por mim só vou embora daqui quando morrer”, afirmou. Há cinco anos ela fez um empréstimo e aumentou a casa, que agora tem quatro quartos.
Antes só tinha dois.

O aposentado Severino Pereira tem opinião diferente. Morando há 45 anos no Porto do Capim, ele afirmou que aguarda, ansioso, as obras de revitalização e a relocação das casas. “Aqui tem muito mosquito. A gente quer viver em um local digno. Embora o Porto seja tranquilo, merecemos morar em outra localidade com mais acesso aos serviços de saúde e educação”, declarou Pereira. Segundo a Prefeitura, as obras no Porto do Capim devem ser iniciadas no prazo de 90 a 120 dias.

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A igreja do Carmo também está contemplada pelo PAC Cidades Históricas, mas ainda em desenvolvimento do projeto. (Foto: Kleide Teixeira)

Conhecida pelo estilo barroco, a Igreja de Nossa Senhora do Carmo, localizada na Praça Dom Adauto, no Centro da capital, é também uma das mais disputadas para a celebração de casamentos, mas nem isso foi suficiente para preservar sua estrutura. A Igreja é outra obra contemplada pelo PAC Cidades Históricas, mas o projeto ainda está em desenvolvimento, segundo informou o Iphan. Construída no final do século XVI, a Igreja do Carmo precisa de restauração em vários pontos de sua estrutura.

O prior da Ordem Terceira do Carmo, Sílvio Lucena, disse que o apelo da comunidade religiosa é que as obras sejam iniciadas o mais rápido possível. Eles lamentam a demora e também a situação da Igreja, considerada uma das mais importantes da história de João Pessoa. “Estamos mantendo contato direto com representantes do Iphan e o que nos disseram é que no máximo em um ano as obras serão iniciadas”, declarou.

Segundo o prior, a Igreja do Carmo tem muitos materiais e partes da estrutura a serem revitalizadas, incluindo vasos e outros objetos litúrgicos, como pia batismal. “A Igreja tem muitos azulejos danificados pela ação do tempo. Isso é visível a qualquer pessoa que visita o local”, afirmou. Ainda de acordo com Lucena, as tábuas do teto foram retiradas há cerca de três anos e estão guardadas esperando a revitalização. O objetivo é resgatar a pintura original. “A Igreja do Carmo precisa de um olhar especial”, frisou.

O frei Rômulo Davi da Silva, da Igreja do Carmo, disse que todos os objetos litúrgicos contemplados na revitalização estão devidamente guardados. Segundo ele, o Iphan informou que a recuperação está prevista para março do próximo ano. “No momento eles (Iphan) estão fazendo o levantamento técnico para ter conhecimento da real situação enfrentada pela Igreja”, explicou.

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O Hotel Globo deve ter obra de revitalização terminada em até um ano conforme determinação da justiça. (Foto: Herbert Clemente)

Em relação ao Hotel Globo, um dos principais cartões-postais de João Pessoa, as obras de revitalização devem ser iniciadas imediatamente e concluídas em até um ano, conforme decisão da juíza Andréa Gonçalves Lopes Lins, da 1ª Vara da Fazenda de João Pessoa. A obrigação, segundo a juíza, cabe à Prefeitura da capital e ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (Iphaep). O pedido foi feito pelo promotor de Justiça João Geraldo Barbosa, da 2ª Promotoria do Meio Ambiente e Patrimônio Social.

A diretora-executiva do Iphaep, Cassandra Eliane Figueiredo, disse que ao órgão cabe a fiscalização das obras, que devem ser iniciadas pela prefeitura em junho. “O Hotel Globo pertencia ao Estado, mas através de um termo de cessão foi repassado ao município, por isso o Iphaep foi citado na decisão judicial”, declarou. Segundo Cassandra, o Iphaep cobrou da Prefeitura uma posição sobre o início das obras e também exigiu que fosse feita a limpeza do local, com a retirada de entulhos. “Também pedimos a presença da guarda municipal para preservar o patrimônio, que é de responsabilidade da gestão municipal”, afirmou.

A demora na elaboração dos projetos de revitalização dos prédios históricos da capital acontece porque a Prefeitura precisa obedecer aos critérios previstos em lei e executar cada etapa prevista seguindo os critérios exigidos pelo Iphan, segundo informou a Secretaria Municipal de Planejamento (Seplan), por meio da assessoria de imprensa. Mesmo com apenas uma obra em execução, a Prefeitura de João Pessoa informou que, na capital, o processo está acelerado em relação à situação encontrada em outros Estados também contemplados pelo PAC Cidades Históricas.

Projetos estão em conformidade, diz Seplan

Ainda de acordo com a Seplan, as obras estão em fase de abertura de procedimento licitatório e informou que não há divergências entre a prefeitura da capital e o Iphan, em Brasília. Todos os projetos estão em conformidade com os requisitos exigidos pelo órgão nacional, segundo a prefeitura.

A requalificação ou reajustes dos projetos, conforme explicou a Seplan, são normais e prontamente atendidas para atender os requisitos do Iphan.

Quando anunciou o PAC Cidades Históricas há dois anos, a presidente Dilma Rousseff (PT) disse que esse era “o maior e mais emblemático programa de recuperação de obras históricas do país”.

Além de João Pessoa, outras 44 cidades que possuem centro histórico foram contempladas pelo PAC. Na ocasião a presidente disse que as obras selecionadas poderiam ser licitadas imediatamente.

Até o ano passado, as obras do PAC Cidades Históricas ficavam sob responsabilidade de um setor específico da Prefeitura Municipal de João Pessoa. Atualmente, quem responde oficialmente por essas obras é a Secretaria de Planejamento do Município (Seplan).

Abandonado e mal cuidado, Centro Histórico da capital padece

De alguns prédios históricos da capital sobraram somente as fachadas (Foto: Rizemberg Felipe)

Obras contempladas no PAC Cidades Históricas

Em andamento

Centro de Documentação e sede do Iphan na Paraíba

Em fase de contratação

Restauração da antiga alfândega – Museu da cidade
Restauração da antiga superintendência da alfândega – Centro de Cultura Popular
Restauração da antiga Fábrica de Gelo – Centro de Apoio a eventos e visitantes
Requalificação do antigo Cais do Porto – Arena de eventos e cultura
Requalificação das vias de acesso à Arena de eventos e cultura
Restauração do antigo Hotel Globo – sede da coordenadoria do Patrimônio Cultural de João Pessoa (Copac-JP)

Em aprovação

Restauração do antigo Conventinho – Casa das Artes

Projetos em desenvolvimento

Restauração do conjunto Franciscano
Restauração da Igreja de Nossa Senhora do Carmo
Revitalização do antigo Porto do Capim – implantação do Parque Ecológico do rio Sanhauá