Presa idosa suspeita de fazer abortos

Polícia chegou até a idosa depois de denúncias dos parentes de uma mulher, que morreu supostamente após realizar um aborto com  a suspeita.

A Polícia Civil, por meio da Delegacia de Crimes Contra a Pessoa (Homicídios) de João Pessoa, prendeu ontem uma mulher acusada de realizar abortos clandestinos. Marlene da Silva Alves, 75 anos, foi presa em casa, na avenida Barão de Mamanguape, na Torre. Segundo a delegada Emília Ferraz, os procedimentos abortivos eram realizados na casa da acusada e ela utilizava instrumentos que não eram higienizados. Uma mulher morreu depois de ser atendida pela idosa.

A polícia chegou até a residência de Marlene da Silva Alves depois que parentes de Josicleide Gomes de Sousa, 32 anos, procuraram a Delegacia de Homicídios para denunciar que ela morreu depois de passar por procedimentos abortivos na casa de Marlene. “As investigações começaram no dia 30 de junho.

Nós fomos procurados pela irmã de Josicleide, Jaqueline Gomes. Ela disse em depoimento que Josicleide estava grávida do terceiro filho e teria procurado a casa de dona Marlene para fazer o aborto, no dia 6 de maio. Dois dias depois, ela passou por complicações, voltou à casa de dona Marlene e sem resultado foi internada em uma maternidade de João Pessoa, encaminhada para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI), onde passou por uma histerectomia, mas aí já era tarde demais. No dia 8 de maio ela faleceu. Na certidão de óbito consta morte por aborto e septicemia (infecção generalizada)”, informou a delegada. “Quando ela procurou a família já nem conseguia andar mais, de tão fraca que estava e de tantas dores que sentia. Ela deixa dois filhos órfãos”, completou.

Na residência da acusada, a polícia apreendeu vários materiais utilizados nos procedimentos, entre eles, tesoura cirúrgica, luvas cirúrgicas, sondas, espéculo, ducha de lavagem vaginal, medicamentos tranquilizantes e ainda outros objetos de uso ginecológico e obstétrico. “Ficamos impressionados com a falta de higiene. Constatamos materiais enferrujados, com manchas de sangue e com bastante tempo de uso. Dona Marlene alega ser auxiliar de enfermagem e nos apresentou dois certificados, um deles é de treinamento para parteira leiga, e nos disse que todo esse material era usado para cuidar de idosos. Porém, ainda vamos investigar desde quando ela realizava essa prática ilegal dentro de casa. Pode ser que existam outras vítimas”, reiterou a delegada. Como não há pistas, a polícia pede que a população entre em contato, caso tenha informações sobre outros casos, através do 197.

Em depoimento à delegada Emília Ferraz, a acusada negou a realização do aborto em Josicleide Gomes, porém, confessou que desde 1971 realizava esse tipo de procedimento, tendo em vista possuir um certificado de parteira leiga datado desta época. A delegada afirmou que Marlene alegou que praticava procedimentos ginecológicos, mas que só realizou abortos no passado. Ela teria dito ainda que cobrava uma gratificação e agia com intuito de ajudar as pessoas que procuravam os seus serviços, não como ação comercial.

Segundo a delegada, em depoimento, a acusada detalhou as etapas do aborto, explicou que atendia as mulheres, usava as substâncias presentes nos medicamentos Rivotril e Propanolol com intuito de sedá-las, enquanto era realizado o procedimento. Em seguida, aplicava as substâncias por sonda e liberava as mulheres para que o feto morresse dias depois.

O QUE DIZ O COREN-PB

Sobre o certificado de parteira leiga, a gerente de Fiscalização do Conselho Regional de Enfermagem da Paraíba (Coren),Graziela Cahu, explicou que entre 1956 e 1986 existiram as leis nº 2.604/56 e 7.498/86, que formalizavam a profissão de parteiro, mediante a adequação de critérios, como ser enfermeiro, técnico de enfermagem ou auxiliar de enfermagem, e desde que esses profissionais estivessem cadastrados no Conselho. Ela disse que atualmente não há registro no Conselho de nenhum profissional parteiro na Paraíba. "Essa prática é ilegal. Sobre o caso de Marlene Alves, o Coren teria que analisar o certifico da acusada para verificar se este foi emitido por uma instituição credenciada e se ela é cadastrada no Conselho", afirmou Graziela Cahu.

CUNHÃ DEFENDE A CONSCIENTIZAÇÃO

Segundo a coordenadora do Cunhã Coletivo Feminista, a prática de abortos e, consequentemente, as mortes de milhares de mulheres no Brasil, poderiam ser evitadas a partir da descriminalização do aborto. Anualmente, 1,2 milhão de mulheres morrem em decorrência de procedimentos ilegais,  praticados por clínicas e casas clandestinas.

“Se houver a descriminalização do aborto, associada a um trabalho de conscientização, prevenção e de oferecimento desse serviço pelo nosso Sistema Único de Saúde (SUS), as mortes de muitas mulheres seriam evitadas. O aborto clandestino é  um problema de saúde pública, financiado por uma indústria que ganha dinheiro em cima dessa prática, que hoje é ilegal”, esclareceu a coordenadora do Cunhã, Cristina Lima.