Ser Tão vai ao Norte

Apresentando o espetáculo ‘Flor de Macambira’, grupo Ser Tão Teatro peregrina durante 36 dias por onze cidades da região Norte.

No filme Fitzcarraldo (1982), de Werner Herzog, um homem percorre os ermos da floresta amazônica a fim de construir uma casa de ópera. O Ser Tão Teatro inicia hoje uma jornada semelhante: Flor do Norte, projeto selecionado pelo Programa Petrobras Distribuidora de Cultura, peregrina durante 36 dias por onze cidades da região Norte do país apresentando o espetáculo Flor de Macambira e realizando oficinas e laboratórios para a próxima dramaturgia do grupo.

A diretora Christina Streva, que integra a comitiva de 13 pessoas que vencerá uma trilha de mais de dez mil quilômetros por terra, água e ar, destaca o caráter desafiador do projeto: "É uma região que a gente não conhece. Não apenas capitais, mas também cidades do interior de difícil acesso."

A viagem começa nesta sexta-feira em Gurupi (no Tocantins, a 245 quilômetros de Palmas, onde se apresentam na próxima segunda) e segue ainda pelos Estados do Pará, Amapá, Roraima, Amazonas e Acre, terminando no dia 13 de fevereiro em Rio Branco.

Na bagagem, quase uma tonelada de equipamentos, entre cenografia, figurinos e um aparato audiovisual que vai registrar a turnê para um documentário que será lançado após o retorno. Durante o roteiro, a equipe irá produzir um diário de bordo no site www.sertaoteatro.com.br/flordonorte.

"Estamos muito empolgados e ansiosos. O projeto é um resultado dos nossos últimos anos: começamos no interior da Paraíba e já fomos do Ceará à Bahia. Estamos ficando bons nisso", diverte-se Streva, que espera que o contato com o novo público fomente um trabalho sem precedentes na trajetória do Ser Tão.

"Eu tenho lido, não só eu como todo o grupo, há algum tempo, sobre a formação do povo brasileiro. Vamos com os olhos e os ouvidos abertos para entender um pouco dessa mistura que fez a nossa identidade", observa a diretora.

Identidade é a chave para a próxima peça, que irá se nutrir dos depoimentos colhidos entre os moradores das comunidades visitadas até o mês que vem. "O que a gente sabe é que (a dramaturgia) vai ser uma mistura das histórias da comunidade com os questionamentos pessoais de cada membro do grupo", antecipa Streva. "Queremos traçar paralelos entre a ancestralidade e a religiosidade desta região do país com a nossa, nos impregnando e sendo tomados por uma forma mágica, encantada e diferente de ver o mundo."

O contato com povos de origens ameríndias será, portanto, um ponto de inflexão em um repertório constituído, até aqui, por um imaginário predominantemente nordestino. Caminhando por uma vertente ainda inóspita para o elenco, a única certeza da convicção da diretora é querer se desvencilhar dos atalhos dos estereótipos.

Segundo Streva, a ideia é esvaziar a mente e se deixar levar pelos rios que cortam as veias abertas deste Brasil. "Não quero ir com nenhuma visão pré-concebida", diz ela, prestes a conquistar novos espaços. "A gente pode se deparar com coisas muito diferentes do que a gente imagina. Quanto menos a gente levar de preconceito melhor."